welcome
We've been working on it

Capacitor re-marcado ou falsificado: como reprovar na inspeção de recebimento

A inspeção de recebimento é o ponto em que um capacitor de reposição ainda pode ser reprovado antes de entrar no seu inversor ou na sua fonte. Peças re-marcadas — componentes descartados, retrabalhados ou de fim de lote que recebem nova gravação — aparecem com frequência no mercado de manutenção industrial e, na maior parte dos casos, chegam sem ensaio elétrico comprovado. Este guia define critérios objetivos para reprovar esses componentes antes de virarem falha em campo.

Limite de aplicação da inspeção

O procedimento vale para capacitores eletrolíticos de alumínio com terminais radiais ou axiais, nas faixas de 6,3 V a 450 V e de 1 µF a 10 000 µF, usados em reposição de link CC, filtros de saída e fontes chaveadas. Esses componentes são alvo frequente de re-marcação. Capacitores de filme e cerâmicos multicamada (MLCC) exigem outros ensaios e ficam fora do escopo deste guia.

O ambiente típico de aplicação no Brasil — tensão de rede de 220/380 V, temperatura interna de painel acima de 50 °C e umidade elevada — reduz a tolerância a componentes fora da especificação. Por isso, a inspeção não deve se limitar à aparência. Um capacitor re-marcado costuma exibir na cápsula um parâmetro maior do que a peça realmente suporta.

Parâmetros e limites de decisão

Os critérios abaixo se aplicam à comparação com a folha de dados do fabricante original. Quando a rastreabilidade do lote não estiver disponível, use como referência o valor impresso na cápsula e as dimensões físicas esperadas para aquela família de produto.

  • Capacitância: a tolerância usual é de ±20 %. Reprovar se o valor medido estiver fora de 80 % a 120 % do valor impresso. É comum encontrar um componente de 47 µF gravado como 100 µF.
  • ESR: medir a 100 kHz ou na frequência indicada pelo fabricante. O limite de aceitação é o valor máximo do datasheet; acima disso, reprovar. ESR elevado indica eletrólito seco ou junção interna danificada.
  • Corrente de fuga: aplicar tensão nominal com resistor limitador e aguardar dez minutos a 25 °C. Como referência, o limite máximo é 0,01·C·V (em µA, com C em µF e V em volts), com piso de 3 µA; adote o menor valor entre esse cálculo e o datasheet. Corrente que não estabiliza indica filme de óxido degradado.
  • Dimensões e peso: diâmetro, altura e passo dos terminais devem coincidir com o informado pelo fabricante. Peças re-marcadas frequentemente têm diâmetro menor, selo de borracha antigo e peso abaixo do esperado.
  • Vent e acabamento: o relevo da válvula de segurança deve ser original. Pintura nova, marcação por jato de tinta solta ou brilho uniforme em toda a cápsula são indícios de peça alterada.
  • Ensaio térmico: quando houver suspeita, aplicar a corrente de ripple impressa por 15 minutos com o capacitor apoiado sobre superfície isolante. A elevação de temperatura deve ficar estável; aumento progressivo indica que a área do elemento interno não corresponde ao valor gravado.

A tabela a seguir resume os padrões de decisão para recebimento:

ParâmetroComportamento esperadoIndício de re-marcação
CapacitânciaDentro da faixa de ±20 % do valor impressoFora da faixa, com valor incompatível com o tamanho da cápsula
ESR a 100 kHzIgual ou abaixo do máximo do datasheetAcima do máximo ou oscilando entre medições
Corrente de fugaEstabiliza abaixo do limite após dez minutosNão estabiliza ou permanece acima do limite
Dimensões e pesoCoincidem com a folha de dadosDiâmetro, altura ou passo dos terminais divergentes
Vent e marcaçãoRelevo original e gravação uniformeRelevo retrabalhado, tinta solta ou fonte divergente

Procedimento de inspeção passo a passo

  1. Conferir embalagem e código de data. Danos no blister, fitas reembaladas ou código que não corresponde à data esperada apontam para lote de refugo reclassificado.
  2. Medir capacitância e ESR com instrumento calibrado em dez peças do mesmo lote, em temperatura ambiente de 25 °C. Registrar os valores antes de qualquer outro teste.
  3. Aplicar tensão nominal por dez minutos com resistor limitador em série e medir a corrente de fuga de cada amostra.
  4. Verificar dimensões, peso e terminais. Terminais oxidados ou com marcas de solda retrabalhada são motivo de reprovação, mesmo que os parâmetros elétricos estejam dentro da faixa.
  5. Comparar a marcação com o padrão da família do fabricante: fonte, espaçamento, profundidade e posição da gravação.
  6. Decidir pelo lote, não pela peça. Se duas peças da amostra de dez reprovarem, segregar o lote inteiro e acionar o fornecedor.
Em caso de dúvida entre instalar uma peça suspeita e parar o equipamento para buscar reposição com rastreabilidade, o custo da parada programada quase sempre é menor do que o da falha do inversor em operação.

A inspeção de recebimento não substitui um fornecedor com boa rastreabilidade, mas evita que a re-marcação chegue ao seu painel. Reprovar lotes suspeitos protege a disponibilidade do equipamento e reduz o custo total da manutenção.